terça-feira, 27 de março de 2007

Divã

Humhum...
aaah... o divã azul...
os livros espalhados, pouca luz, as janelas gradeadas... estamos na sala.

Silêncio: tudo é segredo. Corto seus cabelos.

Ela me diz: "De Sempre-Livre para OB, eu estava pensando. Assim, quero dizer, me trocou por outra mulher. Contou-me por telefone. Numa ligação a cobrar."
'Ah, um apetrecho de colher sangue pisado...
Hum-hum..."

Ela chora.

Hum-hum...

"e depois vamos às fotos: quando cheguei, estavam espalhadas pela sala. Todas as mulheres que conhecia pelo ORKUT, poses bizarras, nuas ou quase, sandálias de salto e o clichê chicotinho/venda nos olhos/mãos-amarradas-na-cama".

Ela continua: "Um dia desses, saindo do trabalho, chega a mensagem: ‘me ligue, vou morrer, ugh, ugh!’ "

O cabelo no chão, os pelinhos incomodando.

Senti pena. Falo sério. De mim, claro. É que eu estava ocupada. Pensava em uma mulher que me queria burra, arrogante, comum. E, confesso, não fui capaz. Não por não ser burra, arrogante ou comum. Mas porque estava lembrando ... tempos em que andava de bicicleta em parques cariocas e conhecia o presente.

Ela: "Ofereci um drops de fluoxetina. Afinal, não me custou, minha bolsa estava lotada de contemporaneidades."

Hum-hum...
eh... perdão, preciso anotar, você disse fluoxetina?

Ela: "Sim!"

OK. Só para constar.

Eu não fazia a Pollyana. Eu não estava entre os ISO, porque meus amigos eram admiráveis, a família ia bem e meu amante era uma delícia. Suponhamos. Nem sabia de tanta gente tosca. Eu não estava prestando atenção.

Ela: "Agora estou em outro ponto. Acho engraçado o quanto não me vê".

Bom, ponto pra você: nesse caso, autocrítica também não serve pra nada.

Estou em transformação. Borboleta, asas picadas, tornando-se lagarta com hirsutismo. Também posso me desfazer disso. Penso em outra pessoa dizendo que um adulto se torna triste e solitário quando, de repente, é surpreendido, e que mais não vai falar porque é segredo. Ela, a escritora querida. Esqueço a lagarta.

Troco de absorvente.

O relógio sai cuspindo horas e horas. Também me estremece um assovio de morte. A sua e a minha. Pra simplificar, disse que você tinha morrido. Deixei de lado as explicações de fim de jogo. Sonhava por solavancos, por restos, e acordava gemendo, dolorosa.

Não te vi. Você estava por aqui?

Ora, ficou muito pouco.

Hum-hum...

7 comentários:

enten katsudatsu disse...

Cara,
Tua escrita é afiada e muito bão.

Beijo..

Cássio Amaral.

Jane disse...

Bel, ler você por aqui deixou meu dia melhor. Humhum.

João Marcos disse...

Absorvete - sempre livre - vc. E seu texto, claro. Amanhã nhoque, rs.
Obrigado por compartir conosco as palavras, tão bem cuidadas e desprovidas de arranjos agradáveis que pasteurizam o texto.

Makely disse...

Presente

Helena... disse...

Tive que pedir ajuda ao St. Google pra descobrir o que é fluoxetina... "inibidor seletivo da captação da serotonina" = prozac!!! Ahhhhhhhh tá! Não sei, mesmo! rs
Mas do texto eu gostei, e sem remedinho. :)
Beijo.

Borboletas Embriagadas disse...

"pastilhas de fluoxetina''

:)

Não tive que pedir ajuda ao google, rs...


Muito bom o seu conto e escrita... ADOREI!


Quer um drops?

Izabel Xarru disse...

obrigada, baby!não combina com minha plástica de quadris! [:P]